Criada em 2006, a Banda Fantasmão revolucionou o pagodão baiano: levou as pautas da periferia para o repertório, popularizou o groove arrastado e apresentou músicos pintados de branco, vestidos de mortalha, em alusão ao nome do grupo — uma ousadia rara hoje em dia.
“De fato, foi um marco porque, até então, o pagode baiano só remetia à diversão, né? Eu acho que o que convergiu, principalmente, foi a nossa ousadia, a verdade. E aí a galera entendeu”, diz EdCity, 16 anos depois do início da banda e agora em seu retorno ao grupo.
Há um mês, EdCity anunciou que estava de volta ao Fantasmão, criado por ele e pelo empresário Franco Daniele em 2006. A notícia fez Salvador acordar de novo nos anos 2000.
Neste domingo (19), o Fantasmão faz seu primeiro show (gratuito) de retorno em Salvador, no Parque da Cidade, a partir das 11h. A reestreia estava marcada para antes, mas precisou ser adiada por um motivo pouco comum na indústria de shows ultimamente: a demanda foi tanta que os organizadores temeram pela segurança da estrutura da Cruz Caída, onde o Fantasmão costumava realizar seus ensaios de verão.
A quatro dias do reencontro com o público de Salvador à frente da banda que o consagrou, EdCity conversou com o CORREIO. Ele ri e se emociona com os erros e acertos que o trouxeram até aqui, explica o que o fez pensar no retorno ao Fantasmão e reflete sobre o futuro na banda. Uma versão especial da entrevista pode ser conferida no canal do Youtube do jornal (@correio24hBahia). Inscreva-se no canal para acompanhar os conteúdos.
“Todos os erros foram muito importantes para que eu chegasse até aqui, sabe? Então, eu não reclamo, de fato, eu não me arrependo. Algumas coisas eu não faria novamente, mas acho que tudo foi importante. Não existe sucesso sem os fracassos”.
O que convergiu para que o Fantasmão se transformasse em um verdadeiro fenômeno?
De fato, foi um marco porque, até então, o pagode baiano só remetia à diversão, né? O que é muito bom também. Mas o Fantasmão trouxe essa questão social. Essa abordagem nas letras, mais para o social mesmo, dando voz ao povo da favela, dando voz a muitas pessoas que são discriminadas, marginalizadas, e falando das mazelas do nosso povo. Reafirmando também, mostrando o nosso valor, mostrando que quem mora no gueto não é ladrão, quem mora no gueto é cidadão. E eu acho que o que convergiu, principalmente, foi a nossa ousadia, a verdade. E aí a galera entendeu. Acho que tudo que é verdadeiro permanece, fica, não passa.
Vocês esperavam, quando anunciaram esse show, que a demanda seria tão grande a ponto de vocês nem poderem realizar o show lá, porque poderia trazer insegurança estrutural para o local?
Olha, no fundo eu sabia. Eu, Franco Daniele, sabíamos. Mas acho que superou até o que nós mesmos esperávamos, sabe? A expectativa era grande, mas superou o que a gente estava esperando. E quando eu digo que sabia, é porque os fãs sempre pediram, desde sempre: “Volta para o Fantasmão, canta as músicas antigas”. E eu acho que esse impacto foi maior porque eu nunca dei indício de que essa volta pudesse acontecer.
Você nunca deixou claro que poderia acontecer o retorno. Também não sabia se queria?
Uma boa parte do tempo, assim, tem 15, 16 anos… Posso dizer que, na metade desse tempo, eu não queria mesmo. Porque eu estava bem, né, na minha carreira, desenvolvendo a carreira, e eu saí também por conta de algumas divergências. E isso machuca a gente, né? Você abandonar um projeto que você criou. Mas isso ficou no passado, e na metade desse tempo começou a intensificar esse pedido de volta. Eu estava muito bem, e foi muito legal também essa volta por isso. Eu sempre tive tranquilidade na minha carreira. Para mim, para minha família, nós estávamos muito bem. E acho que o mais legal foi isso, né? Poder voltar porque eu realmente quis, porque achei que era a hora certa e não por uma necessidade, sabe?
De quem foi a ideia, então? Foi sua?
Foi minha. Já tinham tentado antes, mas eu não me sentia pronto, não achava que era o momento correto. E aí não rolou. Tudo no tempo de Deus, e aconteceu agora. Foi bom que partiu de mim mesmo, né? Fantasmão é a minha mais bela criação, é como um filho.
Quando percebeu que era o momento certo?
A gente sente que o mercado, o pagode, tomou caminhos muito diferentes daquilo que a gente fazia… E eu vejo que tem esse clima, essa coisa nostálgica das músicas antigas. As pessoas estão carentes daquelas letras mais elaboradas, de conteúdo, que retratam o cotidiano das periferias, daquelas pessoas que querem se reafirmar, mostrar seu valor. Então, acho que veio na hora certa para o momento que a gente vem atravessando no nosso país e nas comunidades.
Como conciliar essa nostalgia com a necessidade de ser relevante também artisticamente?
Então, a gente, nesse primeiro momento, quer fazer com que as pessoas possam reviver aquelas memórias afetivas que são insuperáveis. Quem conheceu seu marido no show do Fantasma, quem foi para o show sem saber como ia voltar, que dormiu na rodoviária para esperar o próximo ônibus. Eu falo que eu poderia estar no topo do mundo, mas aquele momento jamais seria superado, sabe? Para algumas pessoas. Então, eu acho que é isso. Além do novo que a gente pretende também trazer, o principal objetivo é fazer com que as pessoas possam reviver essas memórias.
Você acha que o Fantasmão vai se encaixar justamente nesse momento do mercado do pagode?
O Fantasmão não se encaixa, não quer se encaixar. O Fantasma tem sua própria personalidade, sua identidade, que é muito forte, e não tem necessidade de se encaixar nos padrões. A gente sempre quis defender a favela, mas eu acredito que essa abrangência surgiu da nossa pluralidade musical. Porque o Fantasmão tem o groove arrastado, que é um subgênero do pagode, onde a gente coloca todas as nossas influências dentro do caldeirão e deu nisso, sabe? No groove arrastado.
Mas você sabia que estava criando algo ali?
Não, não necessariamente. Eu só queria expor a minha verdade, musicalmente falando, artisticamente falando, sabe? E eu sempre quis ser diferente, eu nunca quis ser igual. Pô, quando eu estava no Parangolé mesmo, eu usava basquete troçado no joelho. Diziam: “Pô, esse cara é maluco, nada a ver com o pagode”. Nunca quis ser igual. Ser igual é muito chato. Eu sempre quis ser diferente, e no Fantasma não foi diferente também. Eu falei: “Ó, velho, vamos tirar o cavaco aqui, vamos botar outra guitarra, vamos botar uma mortalha, vamos pintar o rosto”. Então, sempre foi diferente.
Por que, diferentemente dos outros artistas do mercado, você quis trazer essa pauta da crítica social para as músicas?